Sabe quando o tempo para?
Hoje é dia 4 de novembro de 2023.
Nesse momento, tenho 33 anos, uma relação absolutamente estremecida com Deus ou qualquer tipo de fé.
Eu não sei no que eu acredito, mas alguma coisa acredita na nossa história e a escreve caprichosamente.
O metafísico e o futebol normalmente são íntimos, mas o sobrenatural e o Fluminense se pertencem.
Se eu tivesse um desejo, seria voltar no tempo e contar tudo isso pra mim lá em 2008, quando tudo era só tristeza.
A Libertadores 2023 inteira foi uma prova de que tava escrito.
A classificação na fase grupos no último jogo com uma partida assustadora contra os peruanos, os dois gols mágicos do Samuel. Contra Inter? Foi sacanagem!
Contudo, a minha relação com Deus continua estremecida, mas a história não deixa de ser escrita por isso.
Entre tantos tricolores que mereciam estar nessa final, eu tive a honra. Ninguém me convence que isso foi sorte. Era pra ser.
Era a oportunidade de cicatrizar aquela ferida que eu achei que nunca fecharia.
Novamente eu queria voltar no tempo e dizer: "Calma, garoto, sua hora vai chegar."
No caminho para o jogo encontrei uns rivais dizendo que torceriam para o Fluminense. Eu fingi que acreditei, eu lembro bem a torcida deles em 2008.
O Maraca estava lindo. E só chama de "Maraca" quem é carioca, patrimônio do Rio de Janeiro. Com todo respeito aos argentinos, mas que fiquem com a sua La Bombonera pra lá.
Reencontrei amigos que estavam lá em 2008. Esses reencontros também estavam escritos.
Na hora de subir aquela rampa novamente, eu não voltei no passado pra contar pro moleque lá de 2008, mas é como se ele me pegasse pela mão e me guiasse para arquibancada.
O roteiro do jogo é que começou diferente de 2008. O Cano marcou no primeiro tempo.
Eu não me apego a esse tipo de ilusão de que o Fluminense seja capaz de conquistar qualquer coisa com tranquilidade. Eu não escrevi a história, mas eu sei como funciona.
Pasme, o gol me deixou até mais nervoso. Passei o resto do jogo esperando pelo golpe que viria, pra depois o herói se levantar e ter o final épico. Porque é assim que tá escrita toda história do Fluminense. É sempre difícil, sofrido, fica que ama muito.
Veio o golpe. Eu sabia que ele viria, mas que porrada. É foda quando a gente espera o golpe e mesmo assim ele te derruba.
O roteirista do universo tem essa mania de brincar com o coração dos tricolores. Prorrogação de novo? Por que tanto sofrimento?
Porque tá escrito que o destino de todo tricolor é lutar até o fim, ser guerreiro e esperar. Quem espera sempre alcança.
O John Kennedy mais importante da história sabe disso.
Sabe quando o tempo para?
O sobrenatural, o metafísico. A história estava escrita.
Um preto tricolor em uma competição marcada pelo racismo. A bola morreu no fundo da rede e matou também toda aflição.
A cicatriz fechou depois de tanto tempo, as lágrimas, gritos, abraços, soluços. O garoto de 2008 abraçou o homem de 33.
Aliás, nos meus 33 anos de vida eu ouvi muito que eu me esforço demais pelo Fluminense e ele não me dá nada. "É só futebol"
Hereges.
Nesse dia 4 de novembro de 2023, o Fluminense me deu tudo.




